quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Ilha de Tatuoca e Suape


Publicado no JC online EM 27 DE Abril DE 2010

Marcos Miliano (*)

Lagosta, carne e peixe eram a “mistura” que compunha a mesa de meu anfitrião em meu primeiro jantar na Ilha de Tatuoca. Uma das melhores refeições que já tive, com conversa boa e paladar divino. Tudo muito diferente do que algumas notícias encomendadas querem mostrar: “Uma ilha de miséria no desenvolvimento de Suape” - Nada disso! As pessoas que vivem em Tatuoca – Ipojuca – PE, têm uma vida de trabalho como todo brasileiro, mas vivem bem e num modo de sustentabilidade ensinado a quatro gerações.

Quero mostrar ao paciente leitor, que talvez não conheça aquele paraíso a apenas 52 quilômetros de nossa capital, que todos os 7300Km2 rodeados por belos rios e mar, com mata, mangue, casas e animais será concretado e transformado na pomposa Zona Industrial Portuária, de um modo ou de outro, tudo estará morto, inclusive o modo de vida tradicional que tem ali. A afinidade dos nativos com o lugar é ignorada e em troca de sua retirada da casa, o que se oferece é a depressão aos idosos que deixarão sua referência de vida, a falta de perspectiva para os mais jovens longe de seu meio de subsistência e a perda geral da paz.

As pessoas que vivem em um lugar de beleza exuberante e com excelente qualidade de vida, em seus sítios com fruteiras, areias brancas e sinfonias de pássaros, serão levadas para uma vila, longe de seu lugar de referência, para morar em casas de gesso, com dois quartos e quintais de 25m².

Visitei a Tatuoca por causa de uma pesquisa acadêmica, conheci as pessoas das 48 famílias que povoam a Ilha da “casa do tatu”, gente um pouco desconfiada por tudo de ruim que aquelas pessoas do desenvolvimentismo têm trazido – barulho, poluição, morte da fauna, flora e a expulsão; Mas que depois, ao perceberem sua amizade, o tratam por compadre e o acolhem em suas casas com a melhor hospitalidade. Nos oito meses que freqüentei semanalmente a casa de meu amigo Edson nunca senti o menor desagrado, cara feia ou questão negativa, nem dele, nem de sua maravilhosa família ou de qualquer morador que convivi durante minha pesquisa, tão invasiva como toda pesquisa.

A partir da série de inovações trazidas pelo “desenvolvimento”, transformam-se as estruturas e práticas sociais e a própria cadeia de geração de valor. No entorno do Complexo Industrial Portuário de Suape, um padrão se constrói para o trato com as comunidades e em meio a diferentes condições os projetos sociais são implantados, sem levar em consideração as necessidades específicas de cada comunidade. O Governo esquece que o que os move deveria ser as questões ligadas diretamente à qualidade de vida dessas pessoas e não as promessas de ganhos econômicos muitas vezes camuflando a destruição do meio ambiente.

A modificação da rotina de vida daquelas comunidades engolidas por esse desenvolvimento deve ser observada antes de tudo, nesse processo de implantações.

Estudos em andamento apontam para uma ocupação da ilha, desde 1550, onde ela aparece em documentos históricos guardados na Torre do Tombo e em outros importantes acervos. Mesmo porque Pinzón aportou em sua praia em janeiro de 1500.

O que o socioambientalismo coloca em pauta, está em associação às necessidades de constituição de uma cidadania para os desiguais, a ênfase dos direitos sociais, o impacto da degradação socioambiental, notadamente sobre as comunidades menos privilegiadas pelo esclarecimento.

O discurso do desenvolvimento sustentado assume papel de preponderância e a sustentabilidade deve ser encarada como um novo paradigma do desenvolvimento. O poder público local, ao invés de aceitar as determinações dos conglomerados corporativos, assinando permissões e alvarás, em nome dos regalos econômicos trazidos pelo desenvolvimento, deveria potencializar uma verdadeira parceria com as associações de moradores para pensar um desenvolvimento que beneficiasse as comunidades humildes, vítimas das alterações promovidas pelos empreendimentos que degradam e engolem um meio de vida histórico, tradicional e sustentável, dessas famílias. E quando me refiro a parceria, não quero dizer distribuir cestas básicas e preservativos, em época de eleição, mas de entender os anseios das comunidades e suas preocupações, tentando compreendê-las.

Antes de pensar o desenvolvimento, a duras penas, com aterros de mangues e estuários, morte de peixes e meio de vida local, a retirada da mata ciliar, entre outros “assassínios”; A coleta e a sistematização de informações estratégicas sobre a função dos ecossistemas a partir de levantamentos completos e reais sobre os impactos dos processos de devastação e desflorestamento deveriam ser feitos e acima de tudo, levados em consideração.

A direção de Suape tenta desfazer a lógica que demanda as articulações e a solidariedade na comunidade, fragmentando com seus acordos individuais e sigilosos a definição de objetivos comuns, promovendo os atritos e conflitos baseados numa acumulação econômica direcionada para cada morador pelo seu direito à terra.

As pessoas estão esquecendo momentaneamente que somos influenciados também pelas coisas da natureza, um lago, um rio, uma montanha ou uma árvore, podem nos oferecer um foco emocional na nossa vida ou para a comunidade, e isso só será notado quando perdermos tudo.

Marcos Miliano é concluinte do curso de ciências sociais da UFRPE e bolsista da Fundaj.

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Como baixar videos embutidos em sites

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Resources

Se você usa o Firefox e nada disso funcionar...

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terça-feira, 27 de abril de 2010

Desparate do Governo


caparollingstone [Notícias] Ministério da Cultura dá aos grandes e  esquece dos pequenos coyote19  [Notícias] Ministério da Cultura dá aos grandes e esquece dos pequenos
Rolling Stone: R$ 524 mil de dinheiro público via Ministério da Cultura Coyote: R$ zero vírgula zero zero

No segundo semestre do ano passado o Ministério da Cultura lançou o edital para Periódicos de Conteúdo Cultural.

Não sei se revistas literárias como Babel (Santos), Ontem choveu no futuro (Campo Grande), Entretanto (Recife), Polichinelo (Belém), revistas pequenas e de grande qualidade, foram inscritas. A Coyote foi.

Esta semana saiu o resultado. Os vencedores: Rolling Stone (que tem na capa da edição de março o apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial), levou Cr$ 524 mil. A Cult, R$ 504 mil, a Brasileiros, R$ 441 mil e a Piauí, R$ 399 mil.

De um lado, revistas comerciais, de mercado, que se sustentam com vendas e anúncios.

De outro, revistas de pequena estrutura, sem a menor chance de sobrevivência na rapina do mercado e que realmente veiculam conteúdos altamente culturais.

Como a distinta platéia sabe, revistas literárias no Brasil, desde o tempo da Klaxon (dos modernistas),da Revista de Antropofagia (de Oswald de Andrade), e da Joaquim (de Dalton Trevisan), têm vida breve. Apesar da qualidade (internacional!) morrem a míngua pela falta de recursos.

E o Ministério da Cultura, contrariando todo o seu discurso, preferiu injetar recursos nas revistas de mercado e virar as costas para as revistas literárias, de pequena ou nenhuma estrutura, feitas invariavelmente por poetas e escritores, que publicam o que há de melhor e mais radical na literatura brasileira, e que lutam heroicamente para se manterem vivas.

Nos discursos, a equipe ministerial até já não se esquece de incluir a literatura quando fala de políticas públicas para a cultura. Na prática, continua cagando e andando para os escritores.

por Ademir Assunção no blog Espelunca

domingo, 25 de abril de 2010

Book Of Eli - Trilha Sonora

Um grande filme - Trilha sonora excelente!

_________________________


Various Artists - Book Of Eli-OST (2010)



Artist: Various Artists
Title: Book Of Eli OST
Year Of Release: 2010
Genre: Soundtrack
Label: Reprise Records
Quality: MP3 CBR
Bitrate: 320 Kbps
Total Time: 46:54 Min
Total Time: 117,73 MB

Tracklist:
(01). Panoramic (07:11)
(02). Outland (03:07)
(03). The Journey (03:26)
(04). Amen (01:50)
(05). The Convoy (01:50)
(06). Solara Violated (01:04)
(07). Safe (01:22)
(08). Human (02:06)
(09). Meant To Be Shared (02:45)
(10). The Passenger (01:55)
(11). Den Of Vice (02:14)
(12). Gattling (01:23)
(13). Blind Faith (02:00)
(14). Convoy Destruct (04:54)
(15). Movement (03:04)
(16). Carnegie's Demise (03:36)
(17). The Purpose (01:59)


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Fundarpe convoca classe cultural


Dando início aos preparativos para a vigésima edição do Festival de Inverno de Garanhuns, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) convoca a classe cultural a inscrever propostas de apresentações culturais para compor a programação do evento, que será realizado de 15 a 24 de julho na cidade das flores.
As inscrições poderão ser feitas a partir desta sexta-feira (23) e seguirão até o dia 10 de maio, sempre de segunda à sexta, das 8h às 17h, na sede da Fundarpe (Rua da Aurora, 463/469, Boa Vista, CEP 50050-000). O regulamento está disponível no site da Fundação (www.fundarpe.pe.gov.br).
Também serão aceitas propostas enviadas pelos Correios – via Sedex com aviso de recebimento – endereçadas à sede da Fundarpe com data de postagem até o último dia de inscrição.
Poderão participar da seleção pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, cujas atividades sejam de natureza cultural com ou sem fins lucrativos.
Serão avaliadas sob os critérios de mérito artístico-cultural e de viabilidade técnica propostas de shows, cortejos, apresentações, performances, intervenções, espetáculos, feiras, exposições e mostras enquadradas em nas seguintes linguagens culturais: Artes Plásticas e Gráficas; Artesanato; Audiovisual; Circo; Cultura Popular; Dança; Fotografia; Literatura; Música; Ópera e Teatro.
Cada proponente poderá inscrever quantas propostas julgar conveniente, mas, no máximo, duas delas poderão ser aprovadas em cada linguagem cultural, com exceção da área de Música – com aprovação limitada a três propostas – e de associações e cooperativas artísticas, para as quais não se aplicam os referidos limites.
Com o objetivo de construir de forma democrática a programação do 20º FIG,a comissão de análise será formada por um representante indicado pela comissão setorial de cada linguagem cultural; quatro representantes (um de cada macrorregião) indicados pelas Comissões Regionais mais um representando Fernando de Noronha, além de até seis representantes indicados pela Fundarpe.
Tal modelo, que permite a participação do setor artístico no processo de escolha,integra a política participativa de co-gestão adotada pelo órgão em todas suas áreas de atuação.
O resultado final será publicado tanto no site como na sede da Fundarpe no dia 15 de junho.


Fonte: Portal PE - 22/04/10

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Recupere documentos do Word

Recupere documentos do Word perdidos

Coincidência ou não, este semana recebi 3 chamadas relativamente a documentos do Word. Basicamente as pessoas perdem muita das vezes horas de trabalho em frente a um computador a bater texto no MSWord e depois em segundos lá se vão os trabalhos. Ou porque o computador ou o Winword encravou, ou porque falhou a luz, ou porque no momento de gravar carregaram no botão ao lado, uma série de situações que muita das vezes fazem as pessoas desesperar.

desespero

Por forma a minimizar as situações referidas anteriormente, o Word possibilita algumas configurações para fazer backup aos seus trabalhos.

Para isso deve carregar no botão como mostra a figura seguinte:

10-07-2009 16-11-21

e em seguida escolher Word Options

10-07-2009 16-12-52

depois ir ao menu Advanced (lado esquerdo) e localizar as opções que se encontram em Save

10-07-2009 16-08-16

Aí deve seleccionar Always create backup copy e Allow Background saves

No caso de perder algum documento, pode desta forma tentar recuperar através da cópia de segurança. Para localizar as cópias de segurança criadas deverá procurar por ficheiros com extensão *.wbk.

Experiência e pobreza, Walter Benjamin



Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: “Ele é muito jovem, em breve poderá compreender”. Ou: “Um dia ainda compreenderá”. Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?
Não, está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres de experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boca em boca. Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano. (p. 114 e 115).

sábado, 10 de abril de 2010

Together for Eternity


Você é fogo.



Juntos, eu sou mais forte.


Você me coloca ao ar, mesmo com os pés na terra.


Você é mais que eu podia querer. Você é 1000%. Amo você.


Veja que fiz "pra você fiha"

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Assim dizia Barzun

O cara é um gênio - imortal pela sua obra.

Apagão na cultura

O historiador americano diagnostica um mal-estar na civilização ocidental, mas acha que a sua decadência tem remédio

Publicado há dois anos nos Estados Unidos e agora lançado no Brasil, o livro Da Alvorada à Decadência (Editora Campus) é uma daquelas obras de deixar qualquer historiador com inveja. Cobre um período de 500 anos e defende a tese de que a cultura ocidental experimenta um processo de declínio. Suas páginas transpiram uma erudição impressionante e, como se não bastasse, estão recheadas de opiniões contundentes. A complacência, certamente, não faz parte do repertório de seu autor, o americano de origem francesa Jacques Barzun. Quando lhe perguntam quanto tempo levou para escrever um livro de tanto fôlego, ele responde: "A vida toda". Barzun tem 94 anos – e conserva intacta sua lucidez. Passou a infância na Paris dos modernistas. Mudou-se para os Estados Unidos na década de 20, para estudar na Universidade Colúmbia. Como professor, foi um dos fundadores da disciplina de história cultural. Ele concedeu esta entrevista a VEJA por telefone, de sua casa em San Antonio, no Texas.

Veja – O que o leva a pensar que a cultura ocidental está em decadência?

Barzun – A palavra decadência expressa uma perda de energia. Transmite a idéia de que as chaves mestras da cultura já não têm o poder de abrir novas portas, de inspirar avanços. No lugar das possibilidades há repetição, estagnação e tédio. Há sinais de sobra de que isso está acontecendo no Ocidente. As confissões de mal-estar são contínuas, o repúdio e a deturpação das instituições são uma constante. Tomemos o Estado-Nação, por exemplo. Ele foi uma das maiores invenções de nossa era. Mas está se desfazendo em toda parte, porque a idéia de pluralismo político, sobre a qual se assentava, foi substituída pela idéia de separatismo. Mais e mais os homens querem unir-se em grupos pequenos de pensamento homogêneo, que formem unidades políticas separadas. A região dos Bálcãs, claro, é o exemplo clássico. Mas o processo pode ser observado em qualquer lugar, da Catalunha à Escócia, que há pouco instituiu um Parlamento independente do Parlamento inglês. Outro indício está na busca de tantos ocidentais por seitas e religiões que vêm do Oriente e trabalham idéias como a do nirvana ou a do "não-ser". Isso não é um sinal de entusiasmo com a nossa cultura.

Veja – E no campo das artes?

Barzun – O esgotamento é ainda mais patente. Observe a agitação frenética, os esforços desesperados para criar novidades. Os rótulos se sucedem – da "antiarte" à "arte encontrada", à "arte descartável" e assim por diante. As belas idéias surgidas na Renascença, e com as quais lidamos por 500 anos, tiveram seu prazo de validade vencido. Tome uma obra escrita no auge da Renascença, o Pantagruel, do francês Rabelais, e um livro escrito no auge do modernismo, o Ulisses, do irlandês James Joyce. Joyce tomou muitos temas e procedimentos lingüísticos emprestados de Rabelais. Ambos expõem recantos sórdidos da sociedade, ambos exploram vigorosamente a carnalidade humana. Mas, enquanto a literatura do francês nos deixa estimulados e eufóricos, a de Joyce é depressiva. Basta ler os dois livros para perceber as diferenças de ânimo entre uma cultura em sua aurora e uma cultura em desencanto.

Veja – O senhor parece ter uma opinião ambígua sobre a arte moderna. Reconhece a força de certos artistas, mas lamenta de maneira geral o espírito com que fizeram suas obras.

Barzun – Nos primórdios, o modernismo foi uma batalha para livrar o artista de padrões ancestrais de educação e liberá-lo para desenvolver uma visão individual do mundo. Mas tudo que os artistas viram foi um mundo injusto, materialista, desprezível. Desde os anos 20, pelo menos, a arte ocidental tem sido de destruição deliberada da sua própria tradição e de hostilidade contra a sociedade, de maneira geral. O trabalho de destruição das pontes com o passado acontece até mesmo onde o repertório utilizado é antigo. Veja o caso das produções teatrais. Hoje ninguém mais encena Shakespeare. Encenam falsificações que nem sequer se preocupam em entender as intenções originais do artista.

Veja – O senhor criou um rótulo para o momento presente. Diz que vivemos em "tempos demóticos". O que quer dizer com isso?
Barzun – Fiz isso em nome do bom uso das palavras. As pessoas costumam referir-se a práticas "democráticas" não apenas no campo político, mas também no das artes e do comportamento. Eu preferiria manter a palavra democracia para designar apenas um sistema político – que, diga-se de passagem, não atingimos de maneira plena em lugar nenhum. Para designar coisas relativas a modo e estilo de vida – roupas, comidas, formas de expressão –, tomei emprestada do grego uma palavra de mesma raiz, "demótico", que significa simplesmente "do povo". A primeira moda demótica surgiu logo depois da Revolução Francesa, quando os calções da aristocracia foram abandonados em favor da calça do trabalhador. Hoje, não é preciso dizer, a calça jeans de vaqueiro tornou-se universal – com suas variantes desbotadas, rasgadas e mal-ajambradas. Mas a vestimenta é apenas o sinal mais óbvio do estilo demótico, que está em seu auge e é marcado pela displicência e pela crença de que nada deve interferir na realização de todo e qualquer desejo.

Veja – Nas últimas décadas, vários países que viviam sob regimes ditatoriais entraram em processo de democratização. Bens circulam pelo globo e a medicina ajuda a salvar vidas em países pobres. Esses eventos são regidos por idéias e técnicas surgidas no Ocidente. Não seriam um sinal de que a cultura ocidental ainda tem algo a oferecer?

Barzun – É como eu disse no começo da entrevista: o termo decadência expressa uma perda de 
energia, não um estado de ruína total. Ainda há idéias ocidentais capazes de inspirar e servir de guia para países jovens. E não há dúvida de que a ciência e a tecnologia do Ocidente continuarão a produzir avanços e benesses. É uma ressalva, aliás, que faço em meu livro: a ciência não passa pelo processo de declínio observado em outras áreas. Mas isso não invalida o diagnóstico geral. Digamos que o estado da alma ocidental não é feliz. Não encontramos ninguém dizendo a frase de Erasmo no começo da Renascença, e que os franceses repetiram depois da Revolução de 1789: "Que tempo maravilhoso para se viver!".

Veja – Supondo que o senhor esteja certo, o que vem depois da decadência?

Barzun – Ninguém sabe – e esse é o fato positivo. Meu livro procura descrever um estado presente, e não fazer profecias. Certos germes sempre podem se desenvolver numa cultura e causar uma fermentação que a leve a caminhos imprevistos. Foi o que aconteceu no fim do século XV, quando a descoberta do Novo Mundo balançou a Europa e abriu possibilidades antes inimagináveis.

Veja – Existe alguma época em que o senhor gostaria de ter vivido?

Barzun – No século XIX, a partir de 1830. Foi um tempo de grande inventividade em toda a Europa. A era se autonomeou Era do Progresso, e com razão. Foi um tempo de luta contra os resquícios da monarquia e do velho sistema de classes. Havia um sentimento de conquista, energia e desenvolvimento no ar. O ambiente mais adequado ao espírito humano.

Veja – Sua vida atravessa o século XX quase inteiro. Sua vivência pessoal influiu de alguma forma em sua visão de historiador?

Barzun – Sim, é claro. Eu nasci e passei os primeiros anos de vida na França, onde meu pai e minha mãe eram amigos e colaboradores da nova geração de artistas que surgia. Os pintores cubistas freqüentavam nossa casa, assim como muitos escritores, do romancista André Gide ao poeta Apollinaire, sobre cujos joelhos eu aprendi a ler as horas num relógio. Eu compartilhei da atmosfera de alegria e excitação criativa que envolvia essas pessoas. Olhando em retrospecto, sinto-me uma testemunha e digo como historiador que aquele foi um dos grandes períodos criativos de nossa cultura. Então veio a I Guerra Mundial, que estilhaçou de maneira brutal a idéia que todos fazíamos do que fosse a civilização. Quando entrei na adolescência, depois de atravessar quatro anos de conflitos, tinha desenvolvido um quadro de depressão profunda que me levou a tentar o suicídio. Esse fato, aliado à dizimação dos quadros de professores universitários da França e da Inglaterra, foi a causa de minha mudança para os Estados Unidos, onde completei os estudos. Minha sensação de viver num mundo em declínio não é recente, portanto. Nos anos 50, cheguei a ter a impressão de que nos encaminhávamos para uma reviravolta positiva, mas foi um engano de minha parte. Esse intervalo não durou quase nada. A trajetória descendente se acentuou no fim dos anos 60.

Veja – Esse período de decadência descrito pelo senhor coincide com a expansão da influência da cultura americana pelo globo. Como cidadão de duas culturas, a francesa e a americana, o senhor deplora o que se convencionou chamar de americanização da cultura?

Barzun – Acho tolice culpar os Estados Unidos. Diria, antes, que o país está na vanguarda de seu tempo. Se esse tempo é de decadência, os efeitos se sentem primeiro aqui. Não há nada que obrigue países de sólida tradição cultural, como a França ou a Inglaterra, a imitar modas criadas pelos americanos. Mas eles o fazem, o que mostra que certas correntes de comportamento são inerentes à nossa época. Onde está escrito, por exemplo, que é imperativo "democratizar" a educação ao estilo dos Estados Unidos? No sentido que a palavra assumiu, ela não significa tornar a educação acessível a todos, mas simplesmente baixar sua qualidade, de modo a tornar possível que todo mundo deslize pelos anos de escola sem esforço. Vejo por isso com muito ceticismo e ironia certos discursos feitos na França, por exemplo, que falam em proteger a língua e a cultura nacionais. O que as últimas décadas fizeram à língua francesa realmente me deixa um pouco irritado. Palavras inglesas são adotadas de maneira indiscriminada, às vezes mesmo na presença de equivalentes perfeitamente utilizáveis. Essa adoção ignorante, sem nenhuma forma de filtragem e adaptação, é uma força destrutiva da cultura. Só que agora me parece um pouco tarde para reclamar.

Veja – A América Latina praticamente não é citada em seu livro. Não há contribuições do subcontinente à cultura ocidental?

Barzun – As sociedades latino-americanas são extensões da civilização européia. Politicamente, não contribuíram com nenhuma idéia original para o Ocidente. No campo das artes, é possível destacar nomes e movimentos importantes – mas não a ponto de ter mudado os rumos da cultura. O argentino Jorge Luis Borges, por exemplo, é um escritor que admiro imensamente. Mas não o cito de maneira específica no livro, porque se trata de uma estrela em uma vasta constelação. Em outras palavras, ele pertence ao universo da arte modernista tardia que discuto no livro. Citei outros nomes, de igual peso, em vez do dele.

Veja – Seu livro traz várias pequenas biografias de personagens da cultura ocidental. Algumas escolhas são óbvias, como as de Martinho Lutero e René Descartes. Outras podem ser consideradas excêntricas, como a da escritora de romances policiais Dorothy Sayers. Quais critérios o guiaram na escolha de nomes?

Barzun – Ao mencionar Dorothy Sayers, Walter Bagehot ou James Agate, para ficar apenas em alguns ingleses, não estou apenas dando espaço a preferências pessoais. Estou tentando indicar nomes cuja influência ainda não foi devidamente reconhecida. Bagehot, por exemplo, foi um dos pensadores mais originais do século XIX. Dirigiu a revista inglesa The Economist por dezessete anos e deixou doze volumes de comentários extremamente lúcidos sobre a política e a economia de seu tempo. Agate ajudou a formar o gosto artístico de seus compatriotas no começo do século XX – além de ter sido autor de um diário que ocupa nove tomos, cobre um período de quinze anos e é um retrato sem igual da Inglaterra do seu tempo. Sayers, finalmente, é uma das grandes teóricas dessa importante forma de ficção popular, o romance policial. É também uma pensadora original no campo da religião. As pessoas deveriam conhecer esses nomes, e algo sobre o que disseram.

Veja – Em contraste, o senhor dedica muito pouco espaço a figuras consideradas fundamentais: Darwin, Marx e Freud. Por quê?

Barzun – Creio que, ao fazer isso, estou em sintonia com o estado atual da reputação dessas pessoas. Em todo o mundo, o pensamento marxista está em refluxo. Marx sofreu uma perda enorme de influência como teórico político. Alguns de seus textos filosóficos ainda são valorizados – mas sobretudo aqueles escritos na juventude, antes de O Capital. A retração na influência de Freud também é visível. Seu legado está sob ataque e nem de longe se fala tanto nele quanto na primeira metade do século XX. O caso de Darwin talvez seja o mais polêmico. Creio, no entanto, que a importância dada a ele está em descompasso com suas conquistas reais. A idéia da evolução das espécies já circulava 100 anos antes dele. O que Darwin fez foi propor um mecanismo para a evolução, a célebre idéia da seleção natural. Ora, se esse mecanismo realmente funciona como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur, na França, me disse que ninguém mais lá dentro aceitava ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas que o desenvolvimento da ciência tem postona como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur, na França, me disse que ninguém mais lá dentro aceitava ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas que o desenvolvimento da ciência tem posto em questão vários postulados da cartilha darwinista, algo que passa despercebido por quem não está enfronhado nas discussões.

Veja – Se tivesse de escolher dois nomes representativos dos períodos de auge e declínio da civilização ocidental, quais seriam eles?

Barzun – No que se refere ao auge, eu hesitaria entre Shakespeare e Montaigne. Poderíamos dizer que ambos inventaram o indivíduo, por oposição ao tipo social. Hoje em dia, não somos apenas cidadãos ou trabalhadores, mas também indivíduos aos nossos próprios olhos, graças a esses dois escritores. Um deles é poeta e dramaturgo inglês, o outro prosador analítico francês: ambos inventaram modos de expressar a personalidade. O nascimento do indivíduo e do individualismo foi fundamental, porque encorajou a invenção nas artes, fomentou a diversidade e a diferença. Além disso, foi germe para que, na política, surgissem idéias como a de direitos humanos. No outro extremo, o do declínio, eu indicaria Pablo Picasso e Marcel Duchamp – cuja família, por sinal, era muito próxima da minha. A despeito da grandeza de ambos, eles formam um incomparável par de destruidores. Em Duchamp, sobretudo, é possível ver a imaginação trabalhando deliberadamente em favor da quebra, da paródia inclemente. Duchamp é um nome paradigmático. Está na origem da escola que impera atualmente, quando não existe diferença entre uma obra de arte e o produto que você encontra no armazém da esquina.

Veja – O que o futuro reserva aos clássicos?
 
Barzun – Os clássicos parecem estar afundando rapidamente no esquecimento. Mas isso já aconteceu antes. A Renascença trouxe de volta obras da Antiguidade que estavam completamente perdidas. Não há motivo para um pessimismo terminal. É preciso persistir no ensino dos clássicos. Não é fácil, já que uma quantidade básica de informação histórica se faz necessária, para que as obras não sejam vistas fora da perspectiva adequada e completamente distorcidas. Mas os benefícios são óbvios. Ler os clássicos é um maravilhoso exercício de raciocínio e imaginação.
Vc eh 100%, Bela.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma delicada forma de calor.


(...)
Está ventando.
Você está vendo?
Tenho medo,
Por que são fortes e assustadores.
Mas você está comigo...
Deveria estar.
Estão mudando.
As dunas onde repouso.
Elas não são fixas, eu sabia.
Só a pedra é fixa.
A vida é uma sucessão de ventos...
Está chovendo, mas não tenho medo.
Gosto da chuva, mesmo com vento.
A Chuva lava, limpa, faz o recomeço, germina, fortifica...
Mas eu não quero mudar, recomeçar.
Então a chuva não é bem vinda.
O vento diminuiu a intensidade.
Meu medo se abrandou.
Por que será que o vento me trás medo?
O som do vento continua a me incomodar.
Vento, não varre o pensamento?
Medo não é ausência de coragem.
Silêncio não é ausência de pensamento.


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Eu me lembro
de você ter falado
Alguma coisa sobre mim
E logo hoje, tudo isso vem à tona
E me parece cair como uma luva
(...)
E quanto ao que você me disse
Eu me lembro sorrindo
Vendo você tão séria
Tentar me enquadrar, se sou isso
Ou se sou aquilo
E acabar indignada, me achando totalmente impossível
E talvez seja apenas isso:
(...) Impossível.
E talvez, a chuva, o cinza,
O medo, a vida, sejam como eu
Ou talvez , porque você esteja de repente,
Assistindo muita televisão
(...)
O seu olhar não consegue perceber
"que" o frio, "é" uma delicada forma
De calor

Lobão




(interpretação de Zeca Baleiro)

Calvin